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SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO!
Ser ou não ser eis a questão! Esta é uma famosa frase de William Shakespeare no clássico Hamlet. Ele fala das dúvidas e dos tormentos que assolavam a alma. O texto é realmente clássico, lindo, cheio, denso e impressionante:
Ser ou não ser, eis a questão! Que é mais nobre para o espírito: sofrer os dardos e setas de um ultrajante fado, ou tomar armas contra um mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo? Morrer... dormir; nada mais! E com o sono, dizem, terminamos o pesar do coração e os mil naturais conflitos que constituem a herança da carne! Que fim poderia ser mais devotamente desejado? Morrer... dormir! Dormir!... Talvez sonhar! Sim, eis aí a dificuldade!
Eu acho muito parecido com as dúvidas que residem nos corações de muitas pessoas sobre o que Jesus disse na verdade a esse jovem rico no texto de Marcos 10: 17-31. Muitos se perguntam: Os ricos vão para o céu? Ou será que somente os pobres? Afinal é bom ou não ser rico? Ou ser pobre? Qual a convicção que posso ter no coração?
Este jovem é um mundo de contradições. Ele tinha tudo e não tinha nada. Ele tinha tudo, mas queria justamente o que entendia que lhe faltava ainda: Ele queria Deus. Então ele corre entusiasmado para Jesus se ajoelha e pergunta: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? (Mc 10: 17). Jesus diz que ele sabe os mandamentos ao que ele responde ter observado desde a sua juventude.
Esse jovem era alguém que havia se importado com Deus por toda sua vida. Não há hipocrisia nem ironia na sua pergunta. Sua pergunta é honesta, é real e revela um dilema de sua alma, uma luta no seu coração.
É maravilhoso observar o comportamento de Jesus no dialogo com o jovem. Em primeiro lugar, Jesus responde a este homem com ternura e faz uma pergunta que o tira do foco do seu questionamento para conduzi-lo a enxergar sua verdadeira necessidade. Em segundo lugar, Jesus o fita e o ama. Assim, sem muita explicação, sem nenhuma exigência. Este jovem era muito rico, de uma classe dominante. Muitas pessoas que têm riquezas, bens, títulos, posição ou autoridade acham que os outros sempre as invejam ao invés de amá-las. Quem sabe este jovem não é o retrato de muita gente que acha que ninguém é capaz de amá-la pelo que é, que as pessoas só se aproximam porque querem algo. Jesus não deseja nada dele. Simplesmente o olhou e o amou. E em terceiro lugar, Jesus o ensinou. Ele listou uma série de mandamentos e o jovem respondeu: ... Mestre, tudo isso guardei desde a minha mocidade. (Mc 10: 20). Este jovem tinha riqueza e posição social, mas isso só o mantinha isolado. Ele tinha uma vida fácil e segura, e provavelmente não era do tipo que se sentia tentando a matar, a roubar, a adulterar, a enganar, a defraudar, a mentir ou mesmo desonrar seus pais.
O problema do jovem e de muitas pessoas bem intencionadas, inclusive no âmbito religioso, é que olham para o cumprimento da lei de Deus com um senso de realização pessoal. O jovem rico via a lei como um testemunho do seu êxito religioso, e que isso o tornava uma pessoa especial. O cumprimento de dogmas e preceitos, regras e leis religiosas não nos tornam pessoas especiais. Fazer o que sabemos que devemos fazer, pobre ou ricos, não deve nos levar a pensar que somos pessoas especiais e mais santas. Por que o que é a lei? O que ela representa? A lei é na verdade o espelho da retidão e da justiça de Deus e nos leva a ver que não estamos, não nos encaixamos no padrão de Deus. É por isso que Jesus diz algo que exige ainda mais dele. O jovem precisou descobrir a própria incapacidade de verdadeiramente conhecer Deus.
Enquanto o jovem observa leis e preceitos religiosos para um senso de realização religiosa, Jesus olha o seu coração. É por isso que Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me. (Mc 10: 21).
O problema da riqueza, do sucesso, da fama, do desejo por reconheciment, pela aclamação, de sermos honrados e sermos vistos como pessoas especiais, nesta luta por manter o status quo pode nos isolar e não os deixar ver nossa própria verdade. A única maneira de se livrar do casulo e descobrir nossa incapacidade, nossa falta de confiança em Deus é nos desapegarmos de tudo isso e nos tornarmos humildes e pobres de espírito, pois dos tais é o Reino de Deus (Mt 5:3). A idéia de Jesus não era torná-lo pobre como se a pobreza fosse a garantia de que ele herdaria o Reino. Pois nem uma coisa nem outra são garantia para entrar no Reino de Deus. O problema do jovem era de coração, de alma, de interpretação do que fosse reino, lei, vida. E este pode ser o nosso.
Nós podemos dar grandes quantias de dinheiro, contribuir com obras sociais, fazer doações a ONGs, igrejas, etc., sem nenhum tipo de envolvimento. Por isso quando Jesus o manda se desfazer de seus bens, de seus títulos, para dar tudo o que tem, deseja na verdade que ele sai da sua zona de conforto, de um mundo que não é real, dizendo que ele tem que se envolver pessoalmente, se ariscar, ir aos lugares de pobrezas, ver a realidade dura de uma vida que ele não conhecia. Jesus desejava que ele fosse capaz de reagir e interagir com o mundo ao seu redor, com sistema do qual ele fazia parte e que se sentisse de alguma forma responsável por este mundo. Aliás, mundo que ele se negava exergar atá aquele encontro com Jesus. O problema não é dar dinheiro, mas se envolver, envolver a alma, o coração e contribuir de alguma maneira para mudar.
“Eu ando com os pobres e necessitados, com os carentes de Deus, com os que desejam a verdadeira vida e se envolvem. Queres o reino do céu? Vem e segue-me!”. Era isso que Jesus estava dizendo, que conhecia a realidade da vida e o jovem entendeu que era muito difícil para ele.
Da mesma forma que este jovem, todos nós, de uma forma ou de outra, temos fome e sede de conhecer Deus. Queremos conhecer o que é verdadeiramente bom e sabemos que o único meio é conhecer Jesus. A jornada desta autodescoberta envolve ser quebrado, enxergar a vida de maneira real, sair da nossa zona de conforto e se dispor a ajudar quem precisa. Não sabemos como termina a vida do jovem, só que ele foi embora talvez sentindo realmente desespero pela primeira vez na vida.
Jesus então ensina aos discípulos, dizendo: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! E os discípulos se admiraram destas suas palavras; mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus. E eles se admiravam ainda mais, dizendo entre si: Quem poderá, pois, salvar-se? Jesus, porém, olhando para eles, disse: Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis. (Mc 10: 23-27).
Qual é a convenção? Se um homem é rico é porque Deus o favoreceu e o abençoou. Portanto, o texto não fala de pobreza forçada ou mesmo pobreza como fonte de espiritualidade que agrada a Deus. O que Jesus está dizendo é que as riquezas, os títulos, a fama, o reconhecimento, valores que nos colocam acima dos outros, podem nos manter longe de verdades críticas e arrancar de nós o desejo por Deus. Jesus não está dizendo que todos devem vender suas riquezas. Nem que é mais fácil o pobre entrar no céu, mas apenas que ele pode perceber com mais facilidade sua necessidade de Deus. Nós não podemos comprar o favor de Deus, mas recebê-lo como um presente. Custa um preço alto demais o acesso a Sua presença, preço que só pôde ser pago por Jesus. Por isso Ele diz que é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível.
Pedro estava compreensivelmente confuso. Ninguém pode se salvar, mas a Deus tudo é possível. Então ele pergunta: E nós? Jesus disse: Aquele que me segue não abandona nada que não lhe seja centuplicado. As riquezas não são nenhuma vantagem, e nenhum de nós tem qualquer possibilidade de receber o céu exceto pela graça do Deus. Devemos, pois, ser agradecidos e servi-lo com alegria e ação de graças, procurando sempre oportunidades de expressar o que é verdadeiro.
Não deixemos que as coisas materiais, que títulos, que honras ou qualquer outra coisa nos impeçam de ver nossa verdadeira condição. Vamos pedir a Deus que nos mostre o que é verdadeiro e nos mova para junto dele. Vamos ser um povo que não anda entristecido, mas cheios de alegria na sua presença e de serviço verdadeiro a Deus e aos homens.
Pr. Carlos Jorge Saldanha