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Postado em 02 de Maio de 2008


FIRMES, ABUNDANTES E VITORIOSOS

Costuma-se dizer que a vida é cheia de incoerências, de contradições. Dar uma olhada ao nosso redor pode comprovar isso. Nossos discursos e práticas parecem tão distantes que chegamos ao nível do absurdo. Falamos em preservar o mundo, mas só o que fazemos é destruí-lo em velocidade alarmante. Falamos em valorização da vida, mas o que fazemos com mais freqüência é matar o semelhante, desde formas mais sutis às mais terríveis. Acreditamos em Deus, mas o negamos a todo o instante. Negamos a Deus, mas acreditamos em espiritualidade sem Ele. Para ilustrar, até de maneira um pouco grosseira essa nossa incoerência, lembro-me das propagandas de cigarros, quando ainda eram exibidas na televisão. Depois de se fazer uma defesa apoteótica do fumo, exibindo todo o charme, riqueza e conquistas de quem fumava determinadas marcas de cigarros, entrava a famosa frase do Ministério da Saúde, que dizia: “O Ministério da Saúde adverte: fumar faz mal a saúde”.
Poderíamos sugerir também, que viessem impressos nas embalagens comerciais, frascos de desodorante, cosméticos, embalagens cirúrgicas a advertência de Paulo aos coríntios: Irmãos, eu lhes declaro que carne e sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem o que é perecível pode herdar o imperecível. (I Co 15: 50).
Vivemos na cultura do corpo, da estética. Esforçamos-nos para permanecer jovens, investimos muito para retardarmos o envelhecimento. Conseguimos certo progresso, sucesso, mas a lei do tempo e da gravidade sempre tem a palavra final e, nós perdemos. A única certeza que se tem com relação ao nosso futuro é sermos destinados a irrepreensível ressurreição ou sofrer com a morte eterna.
É esta a palavra que o apóstolo Paulo traz nesses versos finais de I Coríntios 15. Durante minha juventude participei de algumas peças de teatro na escola. Meu professor era o José Carlos, profissional da área muito competente que amava as artes cênicas. Ele foi um grande incentivador do teatro amador e buscava valores nas escolas. Devido sua barba e cabelos compridos, nós fazíamos um jogo de palavras, de modo que ele ficou conhecido como JC. Infelizmente em 8 de julho de 1982, ele faleceu no trágico acidente de avião na Serra da Aratanha, em Pacatuba, no conhecido vôo 168 da VASP, onde todos os 137 ocupantes morreram devido ao impacto. Portanto, sem ser um expert, aprendi com o JC que numa peça de teatro, as palavras, as idéias e os conceitos são apresentados de maneira muito mais dramática, intensa e tensa. Quando os atores conseguem interpretar bem seus papéis em sintonia com o cenário é como se estivessem construindo uma estrada real, viva tanto para eles como para sua platéia.
Ao ler estes últimos versículos do capítulo 15 de I Coríntios é esta a impressão que tenho. Paulo em meio a um cenário real, cheio de visões, de sons e ações. Neste ambiente as verdades sobre a ressurreição são retratadas de maneira vívida e com efeitos dramáticos. Paulo vem argüindo certo ponto de vista, usando a analogia, a lógica e outros artifícios do Antigo Testamento para demonstrar que porque estamos unidos em Cristo, a doutrina da ressurreição dos crentes cristãos é de importância crítica para nossa fé. Se perdermos de vista isto, diz ele, corremos o perigo de perder tudo. Depois que apresenta seu argumento, Paulo acentua esses versos dramáticos. Ele começa declarando no verso 50 que nem carne nem sangue podem herdar o reino de Deus e depois no verso 51 diz que fala um mistério. Paulo inicia a sua dramática narração do que acontecerá na ressurreição. Eu o imagino como um ator no palco, com a voz que se alterna entre a doçura, a suavidade e o grito. Imagino o que ele faz quando diz “num abrir e fechar d’olhos”, “ao ressoar a última trombeta”, “tragada foi a morte”. A morte é mostrada como um inimigo pessoal. O barulho, o brilho, a surpresa e o triunfo alcançam um “crescendo” no instante em que o universo é transformado. Segundo Paulo, isso é um mistério, uma revelação que Deus lhe deu. “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?" (55). A morte, o último grande inimigo do homem perderá no final. O apóstolo canta a morte da morte. Este é um final dramático sobre a ressurreição.
Paulo já tinha ilustrado, usando a analogia da semente ao dizer que o que é plantado no solo parece muito diferente quando germina e começa a crescer. Por analogia, ele mostra que da mesma forma, na ressurreição os corpos serão diferentes dos corpos que foram enterrados no chão da morte. Ele adiciona ainda outra categoria, dizendo que uma geração de crentes será transformada desta vida para a vida eterna, isto é, sem passar pela morte, não morrerão. A geração final de crentes no tempo do retorno de Cristo será arrebatada com o Senhor ao céu. Esta última geração de crentes será levada ao céu juntamente com todos os crentes de todas as gerações, desde Adão, será levada ao céu num momento. Assim é verdadeira a sentença: “Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados”.
É este o "mistério" que Paulo fala tão dramaticamente em verso 51. Esta palavra é usada nas Escrituras para descrever um acontecimento ou uma circunstância que só pode ser revelada por Deus. Não é fruto de pesquisa ou de estudos aprofundados, não pode ser descoberto por meios normais. Esse "mistério" não é meramente um conjunto de idéias que estão abertas a argumento ou questionamentos, mas a verdade absoluta de Deus. Na última trombeta nem todos morrerão, mas todos serão transformados. Aos da última geração será dado corpos de ressurreição e eles acompanharam o Senhor para viver em céu eternamente.
As implicações disso nos são dadas no verso 53: Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Porque somos destinados a morrer, como seres humanos nós enfrentamos dois dilemas: Primeiro é que somos mortais (nossas vidas terminarão). Quais são os efeitos de conhecer nossa mortalidade sem a esperança da ressurreição? Tão logo nascemos somos confrontados com a realidade de que iremos morrer. Assim, em certo sentido, somos dominados pela morte, mesmo enquanto estamos vivos. Veja o que diz o escritor de Eclesiastes: Todas as coisas trazem canseira. O homem não é capaz de descrevê-las; os olhos nunca se saciam de ver, nem os ouvidos de ouvir. O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol. Haverá algo de que se possa dizer: "Veja! Isto é novo!"? Não! Já existiu há muito tempo, bem antes da nossa época. Ninguém se lembra dos que viveram na antigüidade, e aqueles que ainda virão tampouco serão lembrados pelos que vierem depois deles. (Ec 1:8-11). Mais adiante nos ensina outra realidade da qual ninguém escapa: O destino do homem é o mesmo do animal; o mesmo destino os aguarda. Assim como morre um, também morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego de vida; o homem não tem vantagem alguma sobre o animal. Nada faz sentido! Todos vão para o mesmo lugar; vieram todos do pó, e ao pó todos retornarão. Quem pode dizer se o fôlego do homem sobe às alturas e se o fôlego do animal desce para a terra?(Ec 3:19-21)
O fim para todos é o mesmo. Todos devem morrer e deve partir deste mundo eternamente. Sem a perspectiva, sem o insight da fé que temos, o fato inevitável da nossa mortalidade descolore tudo o que fazemos, rouba a nossa força e esperança. É por isso que muita gente desenvolve fobias e se nega a certas experiências. Tem muita gente que tem medo de voar de avião, medo de sair de casa, e tantas outras coisas por causa de medo da morte. Constroem suas próprias prisões tentando escapar da morte. Mas essa sempre os alcançará!
Saber que somos mortais nos leva a todo o tipo de maldade. Nosso medo da morte nos leva a negar a vida. Como? Roubamos a vida aos outros para garantir a nossa própria. E fazemos isso desde as maneiras mais sutis até as mais terríveis. A única resposta ao fato de nossa mortalidade não se agarrar a esta vida está em nossa união com Cristo na sua ressurreição. Pois é necessário que aquilo que é mortal, se revista de imortalidade.
O segundo é que nossos corpos se deterioram (somos perecíveis, corruptíveis). Nossos corpos começam a perder a firmeza e a amolecer. Nossos cabelos ficam brancos, caem. Nós nos degeneramos. Temos medo disso também. O medo da morte nos leva à escravidão. Adquirimos hábitos autodestrutivos: Uso de drogas, álcool, sexo. Tentamos nos enganar procuramos parecer mais jovem do que realmente somos, ainda que isso venha destruir nossas famílias no processo de tentar reverter o processo irreversível de envelhecimento. Tentamos todos os tipos de porções, produtos e pesquisas para fugir do inevitável. Não podemos impedir nosso corpo de envelhecer. Os cristãos têm a esperança de que naquele dia receberão novos corpos que resplandecerão, expressarão a glória de Deus. Nossa esperança está no Senhor.
Paulo então faz uma declaração em que envolve a questão da morte, do pecado, da Lei, da graça e do triunfo de Cristo e de todos os cristãos unidos com Ele: O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a Lei. Mas graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. ( I Co 15:55-56).
A morte nos faz agir tolamente, nos escravizando à maldade e aos medos com seu aguilhão, o pecado. No coração não queremos aceitar a idéia de que somos pecadores. Buscar anular nossa consciência. À parte de Deus nossa vida consiste em vários esforços para conquistar, transcender, justificar ou explicar nosso pecado. O salário do pecado é a morte e esta é uma sentença que deve ser encarada, pois anuncia o final da batalha. Todos perderão! Mas a morte é tanto uma porta para a vida eterna como um julgamento terrível. Se morrermos em nossos pecados, nós seremos pecadores eternamente. A morte nos sela em nossos pecados. É por esta razão que estamos dispostos a fazer qualquer coisa para evitar este aguilhão. Dançaremos qualquer música, aceitaremos qualquer filosofia, religião ou qualquer outra coisa que nos ajude a escapar.
Onde está a força do pecado? Na lei, diz Paulo. Em Romanos ele declara que há uma lei, que revela o caráter justo de Deus e que esta lei nos julgará. A lei não se curvará. Diante dela estamos desamparados. Somos como alguém que entra numa corrida de 100 metros rasos e alcançar a marca de 10 segundos. Só que devemos fazer isto numa cadeira de rodas. Podemos até ter um certo sucesso inicial, mas os 10 segundos é algo que jamais alcançaremos, porque está além da nossa capacidade. A lei não traz elogios aos esforços, simplesmente exige obediência absoluta e sempre condena algo que não foi alcançado. É por isso que o pecado é tão poderoso e porque tememos tanto a morte.
Mas todo o poder da morte é ineficaz, impotente na morte de Cristo. Paulo grita: “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?" (55). Em Cristo formos libertos do poder do pecado e da morte. Na ressurreição seremos imortais, não mais sentenciados a morte, e incorruptíveis, não mais seremos desgastados. Não temeremos mais o porvir, pois o poder do mal foi desfeito, despedaçado. A vida nos foi dada como dom, como presente. Mas graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo (I Co 15:57).
Paulo termina sua apresentação sobre a ressurreição nos dando algumas razões para vivermos com integridade e com plenitude a vida cristã aqui. Primeiro porque Jesus triunfou sobre o inimigo e nosso destino é a vida e não a morte. Não tememos mais a morte, não somos mais escravos do medo. Enquanto todos os homens nascem para morrer, Jesus morreu para ressuscitar e da morte dá vida os homens. Então, como devemos viver? Paulo nos dá três direções para vivermos livres e vitoriosos: "Portanto, meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil." (I Co 15: 58)
A primeira orientação é para permanecermos firmes, inabaláveis. Paulo está falando de criar raizes, de aprofundamento para ter firmeza, segurança. No livro de Tiago nós lemos sobre os que são levados por todo vento de doutrina. É gente que está sempre aberta para novidades, novas idéias, sobre uma nova maneira de viver. Gente que segue os gurus da moda, que tem sempre audiência. Nossos dias mostram gente correndo de um lado para o outro, mas nunca acham o que verdadeiramente satisfaz. Mas os crentes cristãos têm um lugar em que devem ficar, permanecer firmes, inabaláveis. Gente assim sabe quem é, para aonde vai, sobre que fundamente constroem suas vidas. Por isso podem permanecer firmes.
A segunda é para sermos sempre abundante na obra do Senhor. Não apenas estar enraizado, mas também crescer. Devemos sempre prosseguir, avançar, permanecer caminhando, progredindo, crescendo, sendo abundante. Não precisamos temer o envelhecimento e as suas conseqüências, pois ainda que fisicamente restritos, podemos abundar na obra do Senhor. Pode ser que a velhice nos impeça de fazer alguns trabalhos, mas podemos continuar orando, aconselhando e, principalmente, sendo exemplo para os mais novos.
Por fim, devemos ter a certeza que nosso trabalho não é vão. Precisamos viver com integridade e dignidade diante de Deus e dos homens. Ao invés de fugirmos, devemos aproveitar as oportunidades que o Senhor nos dá para trabalhar na sua obra e ministério. O Senhor se agrada e estima nosso serviço, pois este servir cria em nós o caráter que levaremos para a eternidade.
Uma boa e abençoada semana nEle.

Pr. Carlos Jorge Saldanha