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LAVA-ME TODO, OH AMOR!
No início do evangelho de João há uma explicação da missão do Cristo: Veio para o que era seu, mas os seus
não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de
Deus (Jo 1:11-12).
“Os seus” refere-se aos judeus, seus compatriotas que esperavam o Messias.
Os doze primeiros capítulos de João registram a obra da graça de Jesus para com eles. Mas Jesus encontra uma hostilidade
crescente, que conspira para matá-lo. Nos últimos versículos de João 12, Jesus faz o último apelo público aos judeus
(Jo 12:44-50). Mas eles o rejeitaram. Bem, nem todos, pois conforme Jo 1: 12 alguns o receberam. Do capítulo 13 em
diante Jesus se dedica inteiramente a seus discípulos.
Do capítulo 13 ao 17 vemos os últimos momentos de Jesus
com seus discípulos. Assim começa a última noite de Jesus com eles. Eles estão próximos da ceia. Jesus está em
Jerusalém, a cidade que em poucas horas o crucificará e um dos seus amigos mais chegados o trairá. Mesmo ciente
da possibilidade de tal evento, Jesus desfruta daquele banquete com seus amigos.
Apesar de todos os
eventos contrários é assim que começa a nova comunidade de Deus, com uns poucos homens ao redor de Jesus.
Essa comunidade se torna forte, vitoriosa e sai de Jerusalém para alcançar o mundo dos seus dias e dos nossos.
Esta comunidade foi estabelecida para ser vencedora e permanecer eternamente.
Acredito que neste episódio
registrado em Jo 13:1-11, a maior descoberta que precisamos fazer não é simplesmente saber que Deus nos ama, mas
acreditar realmente nisso. A grande maioria de nós, mesmo os que são cristãos há muito tempo, consciente ou
inconscientemente resiste ao amor Deus. Agimos como Pedro, que sabia que Jesus o amava, mas reagiu com horror
extremo a todas as tentativas de expressão desse amor.
A crescente hostilidade que enfrentava, dava a Jesus,
a exata medida de que à sua hora havia chegado. Ele sabia que os judeus o estavam procurando. A aproximação da
Páscoa também era um sinal, pois Ele sabia que seria o Cordeiro Pascal.
No primeiro versículo do capítulo
treze, está o que poderíamos chamar de um novo e maravilhoso Êxodo: Jesus deixaria este mundo, redimi-lo-ia
dos seus do pecado e o restauraria a Deus. Os discípulos, no entanto, estavam apavorados. Eles queriam algo
concreto, algo que lhes desse a certeza de que a partida seria por breve tempo e que tudo o que prometera se
cumpriria. Em tempos de incertezas, nós desejamos poder, autoridade, sinais, ações sobrenaturais para gerar em
nosso coração confiança e esperança.
Que sinais eles teriam de que Jesus estaria com eles, de que venceriam
sem alguma demonstração de força? Jesus lhe dá uma resposta que não esperavam. Ele simplesmente os ama. Ama
apaixonadamente. Ama-os até o fim.
Existe algo que Jesus deseja imprimir nos seus corações apavorados:
Sua persistência em amá-los. Ele não quer que tenham dúvidas sobre isso. Do capítulo 13 ao 17 a palavra
amor aparece 31 vezes. Isso é tudo o que Jesus quer que eles saibam, que tenham certeza absoluta. É isso também
que Ele quer que todos nós saibamos, mesmo que seja difícil acreditar, mesmo que tudo diga ao contrário: Ele nos
ama até o final.
A cena é extremamente impressionante e marcante: Jesus e seus discípulos se reúnem para a
última refeição juntos. Mas há traição está no ar. Jesus sabe! Mas Ele também sabe que o Pai lhe deu todas as
coisas, autoridade sobre todas as coisas. Seu poder é divino. Jesus sabe que Judas o estava para trair.
A
atitude de Jesus provoca-nos alguns questionamentos. Precisamos ser honestos em nossa avaliação. Como nós nos
comportamos em situações semelhantes? Como respondemos em ambientes hostis, de traição? A atitude mais comum
de todos nós é procurar se defender, fazer uma blindagem e até atacar ou contra-atacar se necessário. Achamos
que se tivermos mais poder e autoridade, nós resolveremos nossas crises com mais facilidades. Desejamos nestas
horas ter a mesma a autoridade divina, o mesmo poder de Jesus para dar um basta no que nos ameaça e desestabiliza.
Mas o que Jesus fez? Diante de uma situação de traição, de tristeza, de perda, de frustração e desespero, Jesus
simplesmente lava pés.
Eu sempre tive muitas dificuldades com a liturgia de lavar os pés como simbologia
do perdão. Limpar os pés de alguém, mas permanecer com o coração sujo, indigno é traição. A lavagem dos pés dos
discípulos por Jesus tem todo um significado e para entendê-lo é preciso dar um passeio pela cultura. Os convidados
traziam pó nos pés e normalmente lhes era oferecido água para lavar seus pés. Quando o hóspede era alguém especial,
um escravo lhe lava os pés. Só um escravo, não judeu, fazia um serviço tão baixo. A lavagem dos pés
significava tanto honra como humilhação. Portanto, ao lavar os pés de seus discípulos Jesus demonstra uma afeição
inexplicável. Ao mesmo tempo Ele os aceita, os recebe, os abraça, mas quando apanha a toalha e enxuga seus pés assume
o papel de servo, de escravo. Ele demonstra que seu amor é até o fim, até as últimas conseqüências. Jesus desafia
a realidade por causa do seu amor.
Jesus tinha toda a autoridade para destruir o mal. Enquanto o mal
derrama traição, Jesus derrama águas de amor. Ele enfrenta a maldade, os dissabores sem defesa ou ofensa, mas
como o mais humilde dos servos, estendendo a mão amorosa mesmo a quem o trai. Isso pôs o mundo dos discípulos de
cabeça para baixo. Somente mais tarde, eles entenderiam que não eram muito diferentes de Judas, que eram inimigos
de Deus em seus delitos e pecados, mas Jesus os lavou não com água, mas com o seu sangue que purifica de todo o
pecado e livra de toda injustiça. O amor de Jesus nos alcança na forma, na figura de um servo que deseja lavar os
pés daqueles a quem ama. Com isto ele está dizendo: “Bem vindo! Eu te recebo! Eu te aceito!”.
Nossa tendência natural em tempos de aflição é de apenas nos lembrarmos dos milagres do passado, numa tentativa de nos
reaquecer a fé, levantar nossa auto-estima e nos fazer novamente conscientes do amor de Deus por nós. Nessas horas,
porém, não podemos nos esquecer de olhar para nossos pés, pois é onde Jesus está nos recebendo e retirando toda dúvida
sobre o Seu amor por nós.
Eu sei que isto é difícil de entender. Na maioria das vezes a figura que nos vem à
memória é Jesus crucificado. Ele nos abraçou, nos amou e por isso foi a cruz. Foi difícil para Pedro. Ele estava
aterrorizado e resistiu. Jesus sabia que Pedro não estava entendendo Seu amor por ele. Pedro só vai entender depois,
quando Jesus está prestes a ser morto e crucificado, e diz a Pedro que ele vai negá-lo, e finalmente quando Pedro o
nega, o olhar de Jesus expressa todo o seu amor. Assim como Pedro olhamos para nós mesmos, para nossas mentiras,
debilidades, fraquezas e perguntamos: Como Jesus poderia amar alguém assim? Tu me lavas os pés? ... Nunca me
lavarás os pés. O amor de Jesus o leva a um encontro com Pedro, depois da ressurreição a fim de restaurá-lo e
entregar-lhe a missão de amar também com o mesmo amor com que foi amado (Jo 21:15-19). Só depois Pedro entendeu que
a menos que recebesse a aceitação de Jesus não teria parte com Ele.
Da mesma forma que Pedro, muitas vezes nós
não compreendemos o amor de Deus que se manterá em nós pelos vários processos da vida. Nos bons e maus momentos seu
amor é atuante. Insistentemente, impetuosamente, persistentemente Ele nos ama, porque amor que não resiste à rejeição
não é amor verdadeiro. Esta era uma verdade que Pedro precisava aceitar para o resto de sua vida. E mais, é muito mais
fácil dizer que amamos, sem que isso nos cobre nada, enquanto que aceitar o amor de Deus é ser levado ao seu completo
domínio. Receber amor de Deus é renunciar ao controle da própria vida. Por isso que ser amado assim, pode ser que seja uma
coisa horrorosa. Nós resistimos ao amor de Deus porque desejamos manter o controle de nossas vidas, não queremos
influência nas nossas decisões. O amor de Deus desafia nossas convicções, nossa autoproteção, nossa autopiedade.
Em muitas ocasiões é mais fácil dar amor do que receber, porque quem ama não pede nada, mas ser amado exige resposta,
comunicação.
Se eu não te lavar, não tens parte comigo... Senhor não só os meus pés, mas também as mãos
e a cabeça. Pedro agora é insistente. Por quê? Porque sabe que precisa ser lavado. Esta lavagem o torna parte.
Ele agora está disposto e preparado. Por isso ele diz que não apenas os pés, mas todo o seu ser, indicando sua dedicação
total. Ele se coloca por inteiro para servir Jesus.
Pedro resistiu no inicio porque o amor de Jesus desejava controlar
toda sua vida. É assim que somos. Resistimos a Deus porque não entendemos seu amor, seu cuidado por nós. Nunca seremos dignos
do amor de Jesus, nunca seremos bons o suficiente para comprar esse amor. Jamais convenceremos a nós mesmos de que somos
dignos desse amor. É por isso que o resistimos. Foi isso que Pedro descobriu. Estamos sempre querendo fazer alguma coisa
para ser merecedor, e não simplesmente receber. Quando Jesus nos lava, nós ficamos totalmente limpos e pertencemos
completamente a Ele. Mesmo os pés de Judas foram lavados naquela noite. Foi o último apelo de Jesus.
Nesta
preparação da Páscoa, como respondemos ao apelo do amor de Deus? Ele deseja lavar completamente e fazer dEle
para sempre todos os que aceitam seu amor e graça. O amor de Deus triunfará no final.
Pr. Carlos Jorge Saldanha